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O impacto da miséria viva

14 de março de 2018

 

Em 14 de março, o IMS Paulista apresenta Retratos de Carolina, espetáculo multidisciplinar da companhia Os Crespos com participação do rapper Du’Gueto e da poeta Tula Pilar. Dia 21, no IMS Rio, Quarto de despejo, uma leitura musicada destaca trechos do diário de Carolina de Jesus lidos pelo ator Wilson Rabelo e intercalados com canções interpretadas por Mariana Bernardes, ao violão.

 

O impacto do lançamento de Quarto de despejo: diário de uma favelada, em 1960, foi além dos 80 mil exemplares vendidos nos primeiros meses, antes que a obra fosse traduzida em, pelo menos, 15 idiomas: do espanhol ao russo, passando pelo japonês e pelo húngaro. Ultrapassou as tiragens de milhares e fez com que em um ano, de 29 de dezembro de 1960 e 30 de dezembro de 1961, a favela do Canindé, onde morava Carolina de Jesus, a autora do diário, fosse inteiramente desmantelada.

A razão? Pela primeira vez a miséria viva no centro de São Paulo, onde se localizava a Canindé, muito perto do bem-sucedido centro financeiro da cidade, foi exposta de maneira contundente, e isso não interessava ao governador paulista Ademar de Barros. Tampouco era conveniente à instabilidade política por que passava o Brasil que, naquele mesmo ano de 1961, veria o presidente Jânio Quadros renunciar e ser substituído por João Goulart.

Não terá sido por coincidência que, no ano seguinte, 1961, o cotidiano miserável do menino Flávio da Silva, 12 anos, de família numerosa e morador da favela da Catacumba, no Rio de Janeiro, assombrava os estadunidenses por meio da reportagem na revista americana Life, que enviara ao Brasil o talentosíssimo fotógrafo Gondon Parks para mostrar uma família pobre brasileira e sua ideologia. A matéria despertaria a fúria da nossa O Cruzeiro, que, em revanche, mandaria a Nova York o fotógrafo Henri Ballot, filho de pai brasileiro e mãe francesa. Ballot publicaria, nesse periódico, matéria igualmente chocante, expondo, em troca, as condições de vida subhumanas de uma família porto-riquenha habitante de Manhattan. Estava declarada a guerra entre as duas revistas, cujo  desfecho pode ser visto na exposição O caso Flávio, em cartaz no IMS do Rio de Janeiro de 20 de fevereiro a 10 de junho.

Certamente o rebuliço no mercado editorial brasileiro, em 1961, não foi por acaso: a instantânea remoção da favela paulistana do Canindé, e a transferência da favela carioca da Catacumba para o que é hoje a Cidade de Deus, pretendiam esconder a irrefreável denúncia nas  páginas de Quarto de despejo, assim como nas da Life e O Cruzeiro. Aquele foi, sem dúvida, um momento de revelação social importante. De lá para cá, já se sabe no que deu, o que diminui a importância do livro.

Carolina de Jesus em noite de autógrafos

Nascida em 14 de março de 1914, na cidade mineira de Sacramento, e mais tarde moradora da favela do Canindé, de onde saía diariamente para ganhar a vida como catadora de papel, Carolina conheceu a glória de ser entrevistada pela mesma  Life que comoveu os Estados Unidos com o caso Flávio, assim como de entrar no Copacabana Palace. Não esperava, talvez, que seus livros, de prosa e de verso, fossem objeto de estudo em universidades brasileiras e que suas ideias atraíssem sociólogos e antropólogos.

Em 1958, quando o jornalista da Folha da Noite, Audálio Dantas, chegou ao barraco 9 da rua A, na favela do Canindé, encontrou, nos diários de Carolina, a produção de uma mulher determinada a ser escritora. Era esse o destino que, desde cedo, a moça pobre de Sacramento escolhera para si.

A despeito da miséria em que foi jogada, ela nunca pensou em desistir desse objetivo. Viveu-o como um sonho, mas não como um sonho que paralisa, e sim como um sonho que impulsiona. E conseguiu, de forma espantosa, conjugar esse ideal com a crueza de um cotidiano avassalador – revela o diário.

Dois anos depois da visita de Audálio Dantas ela autografava Quarto de despejo para escritores da estatura de Clarice Lispector, que conservou o exemplar da obra em sua biblioteca, hoje sob a guarda do Instituto Moreira Salles, também guardião de pequeno acervo de Carolina de Jesus, composto de  dois cadernos  manuscritos, de conteúdo parcialmente publicado.

Não faltou quem duvidasse da autenticidade de Quarto de despejo. Manuel Bandeira, citado por Eliana Castro e Marília de Mata Machado em Muito bem, Carolina, saiu em defesa da autoria do diário:

Muita gente tem me perguntado se acredito na autenticidade do livro. Querem atribuí-lo a trabalho de Audálio Dantas sobre notas, apontamentos de Carolina. Houve de fato algum trabalho de composição da parte de Audálio. Este declarou no prefácio que selecionou trechos dos cadernos de Carolina, suprimiu frases. Não enxertou nada. Acredito. Há nestas páginas certos erros, certas impropriedades de expressão, certos pedantismos de meia instrução primária, que são de flagrante autenticidade, impossíveis de inventar.

"A realidade é muito mais bonita do que o sonho", escreveria ela em no final de Quarto de despejo, depois de ver reportagem sobre seu livro na revista O Cruzeiro. Repetiria a frase em Casa de alvenaria, o segundo livro, de 1961.  A realidade podia ser mais bonita, mas lhe exigia uma habilidade de que o sonho a poupara: lidar com o dinheiro que o primeiro livro lhe rendera. Os refletores se apagaram sem aviso, assim como sem anúncio desapareceu o glamour da vida de escritora de sucesso.  Em pouco tempo voltou à pobreza. Morreu em 13 de fevereiro de 1977, na casa de um dos filhos, longe da fama que conquistara por pouco tempo.

Otto Lara Resende considerava-a "inteligentíssima", e lhe atribuía "essa mistura de raiva e ternura que leva à vã tentativa de cuspir o que bloqueia a garganta e ameaça matar por asfixia, se não for dito1".


 

  • Elvia Bezerra é coordenadora de literatura do Instituto Moreira Salles


 
1 “Luzes no quarto de despejo”. O Globo, 15 de fevereiro de 1977.

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