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O fotojornalismo na mira do IMS

26 de maio de 2022

 

Incêndio na favela da Praia do Pinto, às margens da Lagoa, no Leblon, RJ, ocorrido em 11/5/1969. A série sobre o ato criminoso abre a seção Foto Histórica. Ela integra o Acervo Diários Associados RJ, com cerca de 900 mil imagens, adquirido pelo IMS em 2016. Acervo Diários Associados/ IMS

Presença forte no acervo do IMS, o fotojornalismo teve nos últimos anos seu espaço multiplicado no instituto, o que se deve a uma circunstância bem específica: a aquisição, em 2016, do acervo fotográfico dos jornais dos Diários Associados no Rio de Janeiro, com cerca de 900 mil imagens – o grupo fundado por Assis Chateaubriand nos anos 1920 já foi o maior conglomerado de mídia no Brasil. Este vasto material, somado à produção de seis fotojornalistas cujos acervos estão sob a guarda do IMS, motivou a criação do Testemunha Ocular, novo site do Instituto Moreira Salles totalmente dedicado ao fotojornalismo, que estará acessível ao público a partir do dia 2 de junho.

Os seis fotojornalistas do acervo do IMS que dão corpo ao projeto são José Medeiros (1921-1990), Henri Ballot (1921-1997), Luciano Carneiro (1926-1959) – estrelas da fase de ouro da revista O Cruzeiro –, e os contemporâneos Evandro Teixeira (1935-), Walter Firmo (1937-) e Custodio Coimbra (1959-). Cada um deles tem uma página no site, com um texto sobre sua trajetória e um conjunto de 50 fotos. Mais tarde serão incorporados a esta seção outros nomes do acervo, que tiveram ou mantêm uma atuação híbrida: trabalharam também na imprensa, enquanto produziam para publicidade e outros projetos. É o caso, por exemplo, do norte-americano David Zingg (1923-2000) e da inglesa Maureen Bisilliat (1931-). Veja a seguir uma seleção de imagens dos seis fotojornalistas do IMS que estão no Testemunha Ocular.

 

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Esses profissionais, com um vasto material produzido ao longo de décadas de atividade, já seriam, sozinhos, suficientes para alimentar o site concebido pelo jornalista Flávio Pinheiro, para quem “o fotojornalismo é uma indispensável expressão visual da liberdade de informação”. Diretor-superintendente do IMS de 2008 a 2020, com passagem por algumas das mais importantes redações do país, ele entendeu que seria interessante extrapolar o acervo do instituto para que o Testemunha Ocular se tornasse "um endereço do fotojornalismo no Brasil".

"Para que isso acontecesse, eu achava que devia haver uma seção para fotógrafos convidados", explica. "A ideia era garantir a presença sobretudo de veteranos do fotojornalismo como Orlando Brito (1950-2022), Erno Schneider (1935-2022) e Reginaldo Manente (1934-), entre muitos outros". Aos poucos, a ideia foi se ampliando para abrigar 44 fotógrafos, pensando na seleção mais diversa possível, que incluísse profissionais de várias gerações e de todas as regiões do país, e contemplasse raças e gêneros – negros e mulheres ainda são minoria na atividade, observa ele, mas isso é algo que vem mudando.

Os nomes selecionados compõem um retrato significativo da produção no Brasil. Há Erno – autor da icônica foto de Jânio Quadros com os pés enroscados – e Brito – que por mais de seis décadas realizou um arguto registro visual do poder em Brasília –, ambos mortos este ano, mas há também jovens na faixa dos 20 anos, como o baiano Renan Benedito (1997-) e o paulista Júlio César (1996-), os dois com trabalho focado nos movimentos negros de periferia. Há profissionais que passaram por redações importantes, mas que fazem um trabalho documental fortemente autoral, caso dos paulistas Lalo de Almeida (1970-), que acaba de ser premiado no World Press Photo 2022 com seu projeto sobre a Amazônia, e  Adriana Zehbrauskas (1968-), que vive em Phoenix, nos Estados Unidos, e se notabilizou pelo trabalho ligado à imigração centro-americana e aos direitos humanos, pelo qual ganhou em 2021 o prêmio Maria Moors Cabot. Cada um deles é contemplado com uma página no site, contendo um pequena bio e uma seleção de 20 fotos.

A foto de Luiz Morier publicada em 1982 no Jornal do Brasil inaugura a seção Imagem Pensada, com comentário crítico de Ynaê Lopes dos Santos

 

Testemunha Ocular já entra no ar, portanto, com um banco de mais de 1.100 fotografias – Leo Aversa foi o responsável pela edição de imagens durante a criação do site, cuja edição está a cargo do jornalista Mauro Ventura. Também terá um perfil próprio no Instagram. Para além dos fotógrafos do acervo e convidados, há uma série de seções que serão alimentadas periodicamente. Uma delas é Imagem Pensada, em que um autor faz um comentário crítico de uma imagem. O primeiro texto a ir ao ar é da historiadora Ynaê Lopes dos Santos a partir da fotografia Todos Negros, de Luiz Morier, publicada no Jornal do Brasil em 30 de setembro de 1982 e vencedora do Prêmio Esso de Fotojornalismo no ano seguinte. Morier fez o flagrante durante uma operação da PM no Rio de Janeiro, quando os policiais prenderam vários homens negros usando uma corda amarrada em seus pescoços. Ynaê a compara a uma gravura do século XIX, de negros escravizados capturados na África, para falar de um "déjà vu sinistro": "Como um país que ensaiava sua construção democrática e cidadã é o mesmo país no qual representantes do Estado se sentem autorizados a aprisionar homens negros, como se a escravidão ainda fosse vigente por aqui?", questiona.

"O fotojornalismo é um certificado de presença do Brasil, ajuda a desbravar o país, com suas imperfeições, suas incompletudes, o que o Brasil é", diz Flávio, citando uma expressão cunhada por Roland Barthes em relação ao retrato no livro A câmara clara (1980).  "Aí entram juntos pecados do jornalismo e alguns pecados do próprio fotojornalismo. Mas mesmo assim, acho que se temos uma história de fotos de indígenas tão bem contada no Brasil, isso se deve ao fotojornalismo", afirma.

Um bom exemplo de "pecado do jornalismo" do qual o fotojornalismo se salvou é a reportagem As noivas dos deuses sanguinários, publicada na edição 48 da revista O Cruzeiro, em 15 de setembro de 1951, sobre o candomblé. O texto, diz Flávio, "foi para o lixo da história". "É uma matéria de um escândalo social. Aponta como é selvagem a religião dos negros, porque sacrificam animais. Não vê nem uma escassa beleza no ritual do candomblé. Já as fotos de José Medeiros, não. São fiéis ao ritual, e ficaram. É algo para se dar valor ao fotojornalismo".

Custodio Coimbra, o mais recente fotógrafo a ter seu trabalho incorporado ao acervo do IMS, conta que certa vez foi questionado, após uma projeção de suas fotos numa universidade fluminense, sobre o porquê de haver tantos registros de meninos de rua. "Porque eu não nasci na Suécia", respondeu. "Nasci no Rio, fotografo o que eu vivo, o que eu vejo", diz. Para ele, que vivencia um caso de amor com a cidade refletida em sua produção, "o fotojornalismo sempre foi tratado como o primo pobre da fotografia". "Ainda é, na verdade, mas algo está mudando, ele está sendo mais valorizado. E exemplo dessa mudança é o projeto deste site". Evandro Teixeira concorda: "A fotografia brasileira hoje é uma das mais importantes do mundo, e estava precisando de um suporte desta grandeza", diz ele, primeiro entrevistado da seção Vida Longa, com depoimentos em vídeo abarcando vida e trajetória profissional de grandes fotógrafos. Veja abaixo um pequeno trecho do vídeo:

Além das seções Imagem Pensada e Vida Longa, outras duas serão alimentadas periodicamente no site: Foto Histórica e Relance. A primeira utilizará principalmente o acervo dos Diários Associados, e já começa com imagens que abalaram o Rio de Janeiro nos anos 1960: o incêndio criminoso da favela da Praia do Pinto, no valorizado bairro do Leblon, em maio de 1969. Na segunda, profissionais contam em vídeo a história de uma imagem que marcou suas carreiras. O fotógrafo José Francisco Diorio abre a série comentando o registro de um incêndio na favela do Buraco Quente, em São Paulo, realizado para o jornal O Estado de S.Paulo em 2004 e que lhe rendeu prêmio do World Press Photo.

A ideia de um espaço dedicado ao fotojornalismo é celebrado por profissionais como a mineira Isis Medeiros, uma das 12 fotógrafas mulheres no site. "Testemunha Ocular é isso: somos poucos que estamos vendo de perto, poucos que estão contando o que está acontecendo", diz ela. Iniciada na profissão através da cobertura das manifestações políticas de 2013, se dedicou nos últimos anos a relatar visualmente os efeitos da mineração em seu estado natal, tendo já produzido um livro sobre a tragédia-crime de Mariana. Outra presença feminina no site, Adriana Zehbrauskas é taxativa ao afirmar: "Agora, mais do que nunca, quando a democracia está em xeque, o mundo precisa de jornalistas éticos e responsáveis, profissionais". Ela percebe um ressurgimento, a nível internacional, da percepção do trabalho do fotojornalista. "Não é mais visto como no Brasil, como um lambe-lambe, o cara que vai atrás, faz um registro. O trabalho do fotojornalista hoje em dia é valorizado, os fotógrafos têm sua própria agenda, sua própria narrativa, participamos da criação de pautas, histórias, isso mudou muito. Eu gostaria muito que o Brasil começasse a ver o fotojornalismo de outra maneira, com outros olhos". 

Lalo de Almeida passou por um episódio recente que corrobora o que diz Adriana. Estava na Sérvia, fazendo uma pauta para um grande jornal brasileiro, quando o editor de fotografia do New York Times lhe telefonou, pedindo uma foto no Brasil. Ao contar que não poderia e explicar por quê, fez-se um silêncio do outro lado da linha, quebrada em seguida pela fala levemente invejosa de seu interlocutor:  "A gente que tinha de estar fazendo isso". Uma boa pauta, uma boa história, atende ao que Lalo acredita ser a missão do fotojornalismo: "A proposta do fotojornalismo é a mesma ideia do jornalismo em si: fazer uma curadoria no meio desse mundaréu de informação, e até de fake news", diz. "O jornalismo faz uma curadoria de tudo isso para apresentar ao leitor um conteúdo de qualidade, confiável, nesse mundo maluco que a gente vive hoje, em que as pessoas recebem informação de todos os lados. Muitas vezes, informação ruim." 

Com apenas 25 anos, Júlio César acredita que sua presença no site – "uma pessoa retinta" – possa servir de referência para outras pessoas de sua idade e origem. Morador de Guarapiranga, região sul de São Paulo, observa um movimento cultural intenso na periferia da maior capital do país, que documenta em imagens desde 2017, com foco especial no movimento negro. Ocupa, portanto, um lugar que não identifica na chamada grande imprensa. "Tem muita coisa acontecendo na periferia, muitos grupos culturais trazendo novas narrativas, mas os jornais continuam a passos lentos. Sinto falta de pautas que são importantes mas são invisibilizadas. Não adianta pregar a diversidade se você não tem diversidade no próprio veículo", diz.

À esquerda, soldado monta guarda diante do Congresso, registro feito por Orlando Brito logo após a edição do AI-5, em dezembro de 1968; à direita, foto do jovem Júlio César durante manifestação contra violência e racismo no supermercado Ricoy, em Vila Joaniza, SP, 2019

 

Morto em março deste ano, Orlando Brito teve a oportunidade de dar um pequeno depoimento para este texto pouco antes de ser internado. Comentou sobre a recente propagação de vídeos curtos, que muitos pensaram que pudessem desbancar a fotografia. "Mas o mundo ficou tão veloz que os vídeos ficaram enfadonhos, e deste modo a fotografia continua sendo uma peça muito eficiente. E isso apesar de termos hoje uma massificação da capacidade de fotografar. Todo mundo tem uma câmera", observou, resumindo: "O que existe hoje é muita imagem e pouca fotografia". Por isso, disse ele, a importância do site, que promove os autores de fotografias fundamentais para se entender o Brasil. 

“Testemunha Ocular cumpre o papel de ser uma memória do fotojornalismo brasileiro vindo do passado até o presente", diz Flávio Pinheiro, autor do projeto. "Os 50 profissionais que mostram seus trabalhos no site foram e são perspicazes observadores da cena brasileira com toda sua diversidade social e regional, de raça e de gênero. Revelam que, apesar do avanço das imagens em movimento, as imagens fotográficas ainda produzem forte impacto e são necessárias para o entendimento da realidade."

Diretor geral do IMS, Marcelo Mattos Araujo comenta o novo site: "O Testemunha Ocular vem acrescentar ao conjunto de sites do IMS um espaço privilegiado de difusão e reflexão sobre o fotojornalismo brasileiro. Não só se constitui em um canal de divulgação do importante acervo de fotojornalismo do Instituto, como também se  configura como um ambiente onde será possível conhecer o trabalho desenvolvido por profissionais brasileiros de várias gerações, atuantes em todas as regiões do país. É um projeto central para nossa Instituição, que tem um firme compromisso tanto com a fotografia brasileira, quanto com a construção de memórias que contribuam para o melhor conhecimento de nossa história."

Nani Rubin é jornalista e integra a Coordenadoria de Internet do IMS