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Nabor Jr.

Fundador e codiretor da revista O Menelick 2º Ato, é jornalista especializado em jornalismo cultural e fotógrafo.

... O ritmo é nosso trazido de lá! Uma tarde break em 1984

Texto Nabor Jr.
Fotos Wagner Celestino

(...) Há seis mil anos até pra plantar
Os pretos dança todo mundo igual sem errar
Agradecendo aos céus pelas chuvas que cai (...)

Mano Brown, em sua participação na música “Eu sou função”, presente no álbum Exilado Sim, Preso Não (2006), do rapper Dexter.

 

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As manifestações negras performadas por meio da dança surgiram em contextos históricos complexos no Brasil. O traumático processo que separou mulheres e homens africanos escravizados de seus grupos linguísticos, culturais, afetivos... − logo que aqui chegavam − misturando-os com outros, de povos diversos, certamente inscreve-se com destaque na subjetividade presente no gene dessa complexidade. Em comum, as ramificações dessas danças negras expandem o sentido plástico convencional do movimento rítmico, da coreografia, do passo aleatório, da ginga solta, do balanço ingênuo... empregando função ao gesto. É arrebatador!

Nos primeiros anos de 1980, quando o break começou a ser praticado no Brasil e manifestou-se com pujança especialmente na cidade de São Paulo, essa expansão simbólica das manifestações performáticas negras estava lá. O protagonismo do corpo jovem, periférico e predominantemente escuro dos seus atores era ballet, mas também era grito. Impor uma nova agenda à cidade, reivindicando o seu real pertencimento e o uso democrático do espaço público, e assim alterar a paisagem e a rotina da região central de São Paulo, era uma delas. A criatividade emancipatória do hip hop aflorava naquele momento, e a dança, primeiro dos seus elementos a se estabelecer no país, ia cumprindo sua generosa função libertária.

 

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Por isso, não foi por acaso que o jovem fotógrafo Wagner Celestino (1952) dirigiu-se justamente à Praça da Sé no fim daquela ensolarada manhã de 1984 para ver e fotografar a movimentação do 1° Concurso de Break da Cidade de São Paulo. Acompanhando os impactos da reabertura do país, o centro de São Paulo, no início dos anos 1980, começava a ser tomado por uma grande diversidade de tribos, dentre elas uma formada em sua maioria por jovens das periferias paulistanas (muitos deles office boys, que já trabalhavam na região durante o dia). Foram eles que deram os primeiros passos do que à época ficou popularmente conhecido como breakdance, reunindo-se nas imediações da estação São Bento do metrô e nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo. Este último, anos antes, palco da histórica manifestação antirracista de 7 de julho de 1978, que culminou na fundação do Movimento Negro Unificado (MNU).

 

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A verdade é que, forjada pela insurgência que o hip hop herdou de antigas organizações negras estadunidenses antirracistas, a espontânea imposição de uma paisagem predominantemente preta, pobre e criativa que se formava no centro, impulsionada pelo break, incomodou. Como outrora ocorrera com a capoeira e com o samba, e mais recentemente com o funk carioca. Dizem, inclusive, que foi por implicações de lojistas da rua 24 de Maio que as rodas de break foram transferidas para a estação São Bento do metrô.

Originalmente surgido nos Estados Unidos na virada dos anos 1960 para os anos 1970, o break foi um meteórico colosso que teve o seu auge no Brasil entre 1983 e 1984. Pegando carona nos passos insinuantes de James Brown e no sucesso de filmes como Flashdance (1983), Wild Style (1983) e Beat Street (1984), o break ganhou as ruas, as pistas de dança, a publicidade. Enfim, virou moda.

Atenta às movimentações populares que pudessem gerar audiência e lucro, a TV brasileira também usufruiu do sucesso do break.

 

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“O estilo robótico de dança tornou-se atração em boates como Tio Sam, na Zona Norte, e Fantasy, em Moema. O programa de Barros de Alencar, da Rede Record, criara um concurso semanal em que competiam equipes de break como Gang de Rua, Dragon Breakers e Furious Breakers. Outras emissoras de televisão também passaram a promover concursos de break, em programas como os de Augusto Liberato (Gugu), no SBT. Nelson Triunfo, do grupo Funk Cia, também aparecia com frequência dançando em programas de televisão, e foi convidado por Gilberto Gil a dançar no clipe da música ‘Funk-se quem puder’”, destaca o pesquisador Ricardo Teperman¹.

 

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Ainda em 1984, os b-boys do Funk Cia participaram da abertura da novela Partido Alto, da Rede Globo. No mesmo ano, os jovens do Electric Boogies Break Dance Group estrelaram um comercial da rede internacional de lojas de vestuário C&A. Esses episódios comprovam não apenas o quão popular o break foi no Brasil em meados dos anos 1980, como também o modo extrativista com que o mercado se apropria, estrategicamente, de manifestações populares para lucrar.

Mas se, por um lado, a “febre do break” no Brasil enquanto fenômeno popular durou pouco mais de um ano, por outro, a passagem desse frenesi fez florescer sua função criativa, emancipatória... consolidando-o como fundamental alicerce da estrutura que mantém o hip hop vivo.

O jovem Gabriel José Perez Silva, o b-boy Biel, é um exemplo dessa capacidade do break em se adaptar ao seu tempo, e das manifestações negras e periféricas expandirem sua função plástica.

Ficha técnica
Entrevistador: Nabor Jr.
Fotos: Wagner Celestino/ MANDELACREW
Vídeo e edição: Danilo Pêra
Trilha: Rodrigo Tuche//Paell9

 

A dança das sombras nas fotos de Wagner Celestino e o registro da dignidade preta

Quando fez as fotos do 1° Concurso de Break da Cidade de São Paulo, com uma câmera emprestada e um filme P&B de 36 poses, Celestino, então com pouco mais de 30 anos, já acumulava certa experiência no registro de atividades sociais e culturais da comunidade negra paulistana. Vinha dedicando-se especialmente à cobertura dos desfiles de carnaval, à época realizados na av. Tiradentes, e à documentação visual de músicos negros. Esta última predileção, inclusive, com o passar do tempo edificou-se como uma das riquezas do portfólio de Celestino, com retratos de nomes como Clementina de Jesus, Nelson Cavaquinho, Jorge Benjor, Paulo Moura, Egberto Gismonti, John Lee Hooker, Peter Tosh, Baden Powell, Luiz Eça, Alaíde Costa e Itamar Assumpção.

Mas voltando ao início dos anos 1980, apesar de ter tido pouca ligação com o movimento hip hop no Brasil, Celestino logo percebeu que havia substância naquela agitação que começava a envolver a mocidade das quebradas da cidade. “O hip hop é uma expressão artística dos jovens das periferias de São Paulo, e mesmo tendo sido um movimento importado de fora, ele sempre foi a voz do jovem preto, pobre, trabalhador... e isso me chamou muito atenção”, recorda-se.

 

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Conhecido pela potente série fotográfica A Velha Guarda do Samba Paulista, Celestino começou a fotografar em 1977. As imagens que produziu do 1° Encontro de Break da Cidade de São Paulo, pela primeira vez reunidas em conjunto, foram feitas de maneira espontânea e com poucas expectativas. Porém já é possível perceber nos shoots o olhar generoso e atento, a preferência pelo P&B e a descrição que acompanharia toda a carreira do fotógrafo. “Essas fotos são uma forma de militância, de resistência. Na época eu não tinha muito essa noção. Eu mesmo bancava os filmes, fazia mais pela nossa causa.”

 

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O dia era de sol intenso. E a luz natural muito brilhante pode tanto oferecer soluções, como problemas para o fotógrafo. Celestino aproveitou o cenário para explorar as sombras, ora iluminando, ora camuflando o semblante juvenil dos participantes do encontro. Sempre altivos, alegres e curiosos. Um ensaio generoso e plástico. Um documento raro que hoje temos o privilégio de ver.

“Infelizmente não consegui fotografar a origem no movimento hip hop em São Paulo. Eu morava em um outro município, enfim, era inviável. Mas o break, já morando em São Paulo, inclusive próximo ao metrô, e aí ficou mais fácil.”

 

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“Muito provavelmente fiquei sabendo sobre o encontro através do rádio. Não foi nenhum trabalho encomendado. Foi mesmo um interesse em fazer um registro da nossa cultura. (...) Era um dia de sol, um dia muito bonito. E na Sé estava um ambiente legal, a maioria jovens da periferia, entre 15 e 25 anos. Acredito que estavam lá em torno de 2 mil pessoas.”

 

Primeiro encontro de break de SP: eu fui!

Entre as cerca de 2 mil pessoas que acompanhavam o 1° Encontro de Break de São Paulo estava o Charles Silva Cavate (1970), o Charles da Zona Leste, como era conhecido, à época com 14 anos.

“Me lembro que este encontro ocorreu num dia ensolarado. Havia um romantismo da nossa parte, éramos muito envolvidos com a dança. Me recordo que estava bastante ansioso para vivenciar este dia. Era uma coisa muito nova. Era quase uma revolução. As pessoas passavam e paravam para ver o que estava acontecendo.”

 

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Morador da Vila Maria, Charles já dançava funk desde o início dos anos 1980, quando o break entrou na sua vida, em meados de 1983, por meio das primeiras aparições do gênero na TV. “Na época havia vários grupos. A gente se conhecia na rua e formávamos os grupos. Naquele momento, em 1984, eu não tinha um grupo. Mas costumávamos nos juntar e dar nomes aleatórios a esses grupos. Eu participava mais como convidado do Funk Cia.”

 

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O Funk Cia, liderado por Nelson Triunfo, e o Electric Boogies, foram as primeiras crew’s que Charles conheceu. E também os pioneiros do movimento em São Paulo. Criado em 1982, o Electric Boogies Break Dance Group intitula-se como o primeiro grupo de break profissional do Brasil. “Me lembro que fomos ver o Electric Boogies em uma casa noturna próximo ao Parque Ibirapuera. Pela primeira vimos um cara dançando break ao vivo. Um cara que tinha vindo dos EUA, com uns passos diferentes. Era a efervescência do começo do break em São Paulo.”

“Tinha muita gente dançando ali na 24 de Maio no início dos anos 1980, da Zona Sul, Zona Leste, Zona Norte... e a gente, que se destacava entre os melhores, ia formando grupos para disputar em casas noturnas. Não me lembro exatamente os nomes dos grupos, eram aleatórios e mudavam os nomes com frequência.”

 

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Pouco mais de 35 anos depois do 1° Encontro de Break da Cidade de São Paulo, mesmo suplantado em visibilidade e interesse pelo rap e pelo grafite, a cultura break paulista segue pulsante e viva. Sua influência – mesmo que silenciosa – reflete-se não somente no surgimento de novas crews, b-girls e b-boys, mas na emancipação crítica de jovens gerações de mulheres e homens negros e periféricos que fazem de um giro acrobático um grito pelo direito de serem e estarem até o infinito.

Nota
¹ Ricardo Teperman, Se liga no som: as transformações do rap no Brasil. São Paulo: Claro Enigma, 2015.

Publicado em 26/11/20

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